À sombra do prestígio.

Nas últimas semanas recebi muitas perguntas no meu twitter sobre alguns problemas que o circuito de duplas passa. O porquê disso, cadê aquilo… Então, nessas discussões com vários amantes do tênis, cheguei em alguns pontos e aqui os concluo.

Horia+Tecau+2012+Australian+Open+Day+12+mSqlLq023Ufl

  • Premiação
    A premiação é muito baixa em comparação com a de simples. Se colocarmos em paralelo todo o dinheiro que Daniel Nestor ganhou em seus 22 anos de carreira jogando duplas, $10,748,629, e a premiação de Rafael Nadal em seus 13 anos de carreira, $53,801,264, podemos ter uma noção.
    Se pegarmos Bob Bryan, que está com uma relação vitória/derrota no ano parecida com Rafael Nadal e compararmos as premiações ganhas durante esses 5 meses do ano, podemos ver melhor a diferença: $721,286 para o americano, contra $3,739,437 do espanhol.
    O mesmo acontece na WTA: neste ano, Victoria Azarenka faturou $3,247,084, enquanto Katarina Srebotnik, 6ª do ranking de duplas e efetivamente a primeira totalmente dedicada a duplas no ranking, levou $305,057. Sara Errani e Roberta Vinci, as líderes do ranking e as que mais faturaram no ano, acumularam $403,395.
  • Transmissão
    Nos últimos anos, a quantidade de transmissões televisivas das partidas de duplas está diminuindo em um ritmo absurdamente rápido. Este ano apenas os ATP 250 estão tendo garantia de transmissão nas quadras com câmeras. Em todos os 10 ATPs de nível 500 e 1000 que tivemos até agora neste ano, se transmitiram juntos 5 partidas, foi muito. Sim, a maioria nem a final mostrou. E alguns até optaram por colocar a final de duplas na quadra secundária, no mesmo horário em que outras finais aconteciam na central.
  • Campanhas
    Já viram alguma campanha publicitária, seja da ATP ou da WTA, voltada para as duplas? São tão raras quanto achar 50 reais na rua. Hoje em dia, não basta ser bom, tem que ter uma boa publicidade também, se quer atrair a atenção. Não é possível colocar fogo se uma faísca não é gerada. E as duplas possuem personagens muito mais cativantes do que alguns simplistas, engraçados e que dariam um mercado fantástico, se bem investido. Mas não acontece, o que leva à falta de…
  • Incentivo
    Tanto a ATP quanto a WTA não incentivam as duplas. E não adianta falar o contrário. Os três pontos acima mostram muito bem isso. É difícil para o público ir atrás de algo que nem sequer tem transmissão na internet. É difícil para os atletas serem apenas duplistas, o que acontece com mais frequência na WTA, seguindo os exemplos de Errani, Vinci, Hlavackova e Hradecka, pela fraca premiação. É difícil gostar de algo que quase não existe.
  • Cultural
    Quer algo mais difícil do que ver campanhas publicitárias voltadas para o circuito de duplas? Ver um tenista treinado para ser duplista. Ser um tenista especializado em duplas é estritamente alcançado após o atleta frustrar-se na carreira de simplista. Seja por lesão, por maus resultados ou por outros milhões de fatores. Isso gera uma visão um tanto quanto desrespeitosa com o circuito, com desdém, como se fosse a última opção na carreira de um atleta. Um escape. E não, não é. Há uma separação no esporte, como se fosse outra modalidade, outro tipo praticado. Isso reflete bem o que Daniel Nestor disse certa vez: “As pessoas te chamam de tenista se você joga simples. Se você joga duplas, eles te chamam de duplista.
  • Espaço
    Pudemos vivenciar isso no último Brasil Open: transmissões de televisão são movidas pelo interesse comercial, assim como a ordem dos jogos de um torneio são montados. A  partir do momento em que algo não tem campanhas publicitárias e nem transmissões, não gerará interesse no público, levando a um ciclo vicioso. A organização do Brasil Open, obviamente visando no público, optou por colocar Bruno Soares e Alexander Peya na quadra central apenas na final. O horário escolhido foi devido ao interesse de transmissão da televisão, que se adequou para passar a final de simples entre Rafael Nadal x David Nalbandian e, após, a rodada do futebol, esquecendo-se totalmente da final em que um brasileiro participava. Dois interesses foram movidos para cima das duplas, privando o público em casa de ver e o que estava presente no torneio ‘escolhesse’ se preferia ver Rafael Nadal na central ou Bruno Soares na longínqua quadra secundária, em meio a chuva.
  • Solução
    Sou da opinião que campanhas + transmissão resolveriam boa parte dos problemas, mais do que qualquer um imagina. Se algo for feito para gerar interesse no público, como seria o caso das campanhas, o retorno financeiro viria para os responsáveis dos torneios e das transmissões. Um número maior de pessoas interessadas traria um prestígio maior, dando uma maior visibilidade. Acredito que pequenas ações podem e muito mudar o rumo das coisas.
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6 comentários sobre “À sombra do prestígio.

  1. Olá Aliny,

    Posso sugerir mais uma medida? Sei que talvez discorde, mas imagino que a maioria das pessoas (eu incluso) gostem de partidas com trocas de bolas mais longas. Assim como depois de 2001 em simples, a ATP poderia tomar uma atitude favorecendo isso para ganhar maior popularidade. Não sei exatamente o que poderia ser feito e nem se seria viável e do agrado dos jogadores (e fãs de duplas), mas digo isso porque eu, mesmo jogando e acompanhando bastante e gostando de duplas, prefiro simples pelo ritmo de jogo.

    • Muita gente tem essa mesma opinião, André. Reduziram bastante o tempo de jogo com o match tie-break, o que leva a um maior tempo de carreira dos duplistas.
      Trocar talvez seria bom pelo lado comercial, mas também encurtaria a carreira dos tenistas. Note que a maioria dos top possuem mais de 34 anos e a aposentadoria bate por volta dos 40 anos, como aconteceu com Mark Knowles. Gostei da medida, mas não sei como seria aplicada, assim como você.

  2. Gostei do post. Inspira reflexões e, considerando que o Brasil tem bons duplistas, a discussão é importante e necessária. E pouco se vê/lê isso nos sites especializados

  3. Concordo com tudo e gostaria de adicionar um ponto.
    Um dos principais motivos que fizeram com que a competição de duplas perdesse visibilidade foi a falta de interesse dos melhores jogadores do circuito em participar. Ultimamente, temos visto um tênis muito mais físico que no passado, podemos ver até pelas características dos jogadores, que já praticamente abandonaram o ‘saque e voleio’ e agora fazem grandes duelos de fundo de quadra com muitas e longas trocas de bola. As quadras também não tem ajudado muito, pisos sintéticos cada vez mais lentos e até a própria grama não é mais a mesma, sempre favorecendo o estilo de jogo defensivo e de fundo de quadra. É um pouco complicado gerar interesse de um jogador top em jogar duplas, sabendo que pode ter jogos de 4 ou 5 horas em um grand slam.
    Com certeza, a falta de prestigio e dinheiro influenciam nesta decisão, mas mesmo com premiações melhores e maior visibilidade, ainda seria difícil ver Nadal, Djokovic, Murray e Federer se desgastando na competição em duplas e colocando em risco a conquista de um torneio em simples.
    A ATP tem feito movimentações para encurtar um pouco os jogos (muito pela pressão das transmissões televisivas), mas de fato que a redução do tempo dos jogos, ou seja menos desgaste físico, pode melhorar o interesse dos jogadores de ponta, chamando um pouquinho mais de atenção.
    Sei que esse é apenas um detalhe e que não resolveria tudo, mas vejo como um detalhe importante a se colocar.

  4. O fator torcida pesa contra os duplistas, na minha opinião. Muita gente acompanha tênis em função deste ou daquele tenista, o qual geralmente não joga duplas. Por outro lado, tênis é visto como um esporte individual, o tenista lidando sozinho com seus nervos durante uma partida, tanto que o circuito masculino sequer permite orientação técnica durante o jogo. Mas que o jogo de duplas permaneça e cresça; até para nos lembrar que existe jogo junto à rede, um oásis, em tempos de maratonistas trocando bolas do fundo da quadra.

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