Sobre Paes, Bhupathi, Bopanna e Mirza

Nessas últimas semanas parei para refletir um pouco sobre o tênis indiano. Sempre foi uma nação fascinante em termos de resultados e é um tanto intrigante observar a quantidade e qualidade de tenistas que saíram do país nos últimos 20 anos. Qual o segredo, afinal?

A grande caminhada da atual geração indiana começou com Mahesh Bhupathi em 1997, quando tornou-se o primeiro do país a ganhar um grand slam (mistas em Roland Garros). O sucesso é claro nas duplas. Com exceção de Sania Mirza, que foi top 30 antes de focar exclusivamente nas duplas por lesões, a Índia não possui qualquer tenista top em simples faz muito tempo. Indianos sempre se deram bem em esportes coletivos, como cricket e hóquei de grama, além de bons resultados na Copa Davis em épocas passadas. Talvez essa mentalidade de trabalho em equipe seja algo que venha da cultura e, como Boris Becker disse certa vez, tênis (em simples) é um esporte individual e você precisa ter a mentalidade de poder fazer tudo sozinho para ser bem sucedido.

No masculino o destaque é maior, com 5 tenistas entre os cem melhores. Os maiores méritos vão para Leander Paes e Mahesh Bhupathi. Juntos, conseguiram colocar o nome da Índia no mapa do tênis chegando na final de todos os slams no mesmo ano (1999) e tornando-se os melhores do mundo. Com 40 e 39 anos respectivamente, é normal pensar que esse legado terminará quando ambos aposentarem, mas Rohan Bopanna, em seus 33 anos, e as revelações Divij Sharan e Purav Raja, ambos de 27, pretendem levar o nome da nação nas duplas ainda mais longe.

Mahesh Bhupathi e Leander Paes.

Mahesh Bhupathi e Leander Paes.

Mas nem tudo são flores. Apesar da quantidade de tenistas bem sucedidos saindo do país, a Índia nunca possuiu um bom sistema de formação de atletas. O sistema atual, inclusive, incomoda muitos ex-tenistas. Nirupama Vaidyanathan, ex-top 200 em duplas e simples e a primeira indiana a ganhar uma partida de grand slam, declarou em agosto que ainda não está satisfeita com o trabalho que vem sendo desenvolvido pela All India Tennis Association (AITA) e que chegou a ser rejeitada ao tentar oferecer ajuda ao tênis indiano feminino.

“A AITA poderia ter feito mais na minha época. Eles não estavam preocupados em chegar ao topo ou em me ajudar. Eles estavam lá do meu lado apenas por estar, apenas existiam.”

“Eu queria trabalhar com a confederação. Eu não tenho nenhum problema com eles. A AITA não aceitou minha oferta. Espero que no futuro nos entendamos.”

O reflexo disso é que apenas Sania Mirza figura dentro do top 300 feminino, tanto em simples quanto nas duplas, pela Índia. Sania, aliás, revela as pobres condições de quando começou a se interessar por tênis.

“Quando eu comecei a jogar, nós costumávamos jogar em quadras feitas de cocô de vaca, elas eram literalmente feitas de cocô. Não estou brincando, não sei porque elas eram feitas daquele jeito, mas não tinha nenhuma quadra dura em Hyderbad.”

Um dos casos mais recentes intriga. Mahesh Bhupathi, após quatro Olimpíadas sem sucesso ao lado de Leander Paes, havia planejado jogar as Olimpíadas de Londres com seu parceiro da época, Rohan Bopanna. Paes não ficou contente ao saber da notícia. Como era o melhor ranqueado do país, Leander queria o direito de escolher o melhor parceiro possível disponível e pediu à confederação que o nomeasse com Bhupathi para a competição. Bopanna e Bhupathi não aceitaram, o que causou revolta por parte da AITA, que imediatamente os puniu, banindo-os da Copa Davis até o segundo semestre de 2014. Após tanta controvérsia, a Índia precisou nomear dois pares para Londres, sendo Bhupathi/Bopanna e Paes/Verdhan.

Mahesh Bhupathi e Rohan Bopanna.

Mahesh Bhupathi e Rohan Bopanna.

A AITA, para evitar que os rumores de que Leander Paes havia ficado tão chateado que desistiria do torneio tornassem realidade, ofereceu a Leander a oportunidade de jogar com Sania Mirza nas duplas mistas. A indiana não ficou feliz de ter sido utilizada, como ela mesma definiu, de ‘isca pacificadora’ pela confederação. Ela preferia jogar com alguém em que já tinha tido algum sucesso (Bhupathi), do que ser tratada como mercadoria, sem ao menos ser consultada. Em resposta às críticas de Mirza, o presidente da AITA soltou em comunicado as seguintes declarações:

“Nós pedimos para que todos os jogadores unam-se, esqueçam suas diferenças, parem de falar publicamente e deem as mãos para o interesse nacional de ganhar medalhas e trazer a glória para a nação”

“A decisão pode ter sido injusta com Leander mas nós sabemos que ele está sempre pronto para sacrificar suas vontades pelo bem da Índia.”

O problema de Mahesh Bhupathi e Leander Paes, aliás, era bem maior do que apenas a falta de sucesso olímpica. Mahesh não pensa duas vezes em chamar Paes de “traidor, ele apunhala pelas costas”, referindo-se à separação repentina no final de 2011, em que Leander não consultou Bhupathi ao querer terminar a parceria. A briga foi tão infeliz que até hoje os dois não se falam direito.

Sania Mirza e Leander Paes.

Sania Mirza e Leander Paes.

A AITA, por meio desse incidente olímpico, mostrou-se altamente influenciável e, na minha opinião, muito fraca administrando algo tão grande. O futuro parece ser sombrio pelas idades de Leander Paes e Mahesh Bhupathi. O último anunciou no ano passado que 2013 seria seu último ano de carreira. Sania Mirza não parece ser mais a mesma de antes, em decorrer das lesões. Rohan Bopanna, 33 anos, parece carregar o futuro do tênis indiano em seus ombros. Renovação nunca é fácil, e parece estar sendo mais difícil do que pensavam.

Falando na nova geração, a administração da AITA chegou a causar um boicote este ano por parte de alguns tenistas que, liderados por Somdev Devvarman, pediam por um melhor apoio por parte da confederação na Copa Davis. Dentre as sugestões propostas pelos atletas estavam melhorias na premiação por participação na competição, troca de técnico e capitão e direito de voz na escolha de local. Paes não boicotou o confronto contra a Coreia do Sul como os outros. Sugere-se que este não juntou-se aos demais por ter regalias vindas da confederação. Divij Sharan, uma das novas caras, já comentou que não recebe apoio financeiro da AITA, não possui patrocinadores e paga suas viagens do próprio bolso.

Enfim, escrevi esse post inteirinho e não consegui responder minha primeira questão. Com tanta controvérsia, problemas de gerenciamento e briga de egos, a Índia conseguiu tirar o melhor de tudo e sair por cima. Não há segredo. Os talentosos indianos surgiram por pura sorte do país. E o pior é que a situação parece ser semelhante em muitos países, incluindo o nosso, o que reflete a infeliz realidade do tênis. Só mostra que o que vemos nem sempre é resultado de um sistema bem organizado.

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3 comentários sobre “Sobre Paes, Bhupathi, Bopanna e Mirza

  1. Existem também alguns tenistas indianos que simplesmente não decolam. Prakash Amritaj, que nasceu nos Estados Unidos, mas defende a Índia, teve bons resultados no tênis universitário e só. Yuki Bhambri, da academia do Bollettieri, foi número 1 juvenil, campeão AO com 16 anos, mas com 21 anos, não está no top 500.

  2. Pingback: 2013, dois mineiros e o Finals | Match Tie-Break

  3. Pingback: Bopanna: ‘Eu gostaria de ganhar alguns Grand Slams’ | Match Tie-Break

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