Diário de Thomas Drouet

Esse post não tem nada a ver com duplas. Resolvi traduzir os diários de Thomas Drouet, ex-parceiro de treino de Bernard Tomic, em que conta o dia a dia com Bernie e seu pai, John Tomic. É de arrepiar de indignação. Os diários originais foram postado no news.com.au aqui e aqui. É longo, mas vale a pena a leitura.

NOVEMBRO DE 2012

27 horas de viagem e estou sentindo demais os efeitos do jetlag. Mal cheguei e John já está nervoso porque Bernard estava jogando PlayStation. Nós estamos aqui na Gold Coast. A casa dos Tomic é linda e parece ter duas partes, uma para Bernard e outra para John. Tem uma piscina indoor, uma BMW X6M na garagem, tudo é bem legal.

Nas primeiras duas semanas houve no mínimo de três a quatro horas de treino por dia. John tem vários acessos de raiva durante os treinos. Bernard e John estão sempre gritando. Eu estou muito ocupado jogando tênis, preparando bebidas e fortalecendo os músculos, mas o preparador físico vindo de Barcelona, Salvador Sosa, chegou. Ele é muito conhecido e respeitado no circuito. Este é um bom time.

Quase que imediatamente John abusa de Salvador em quadra, porque ele está encostado na parede. Ele o faz correr atrás de todas as bolas. Salva está em seus 60 anos, mas faz o que é pedido. Bernard também me diz para ou correr, ou ficar em casa. Se ganho um ponto, ele dá 10 drop shots e, se eu não correr para cada uma das 10 vezes, há um drama. A pressão é constante.

NATAL SEM SALÁRIO COM OS TOMICS

Eu sinto falta da minha família, mas estou feliz na tour. Aí John avisa que mudará meu salário. É Natal, mas ele diz que cortará de 1200 euros para 1000 euros por semana. Minha alimentação deveria ser paga por eles também, mas acabo tirando do meu próprio bolso. “Eu te pago demais”, John diz. “Se você não quiser, pode ir pra casa”.

Desisti do meu trabalho de gerente no Monte Carlo Country Club para este trabalho atual e não posso voltar atrás. Eu não sei porque isso aconteceu… Mas John tem mais notícias. Ele me diz que não irá pagar meu salário de Natal porque nós não treinamos. Salva e eu dizemos que aquele não era o caso, que estávamos aqui na Austrália, longe da família, e o salário era pra cada dia que estivéssemos longe.

Bernard diz para ele pagar. Talvez ele pague ou não, mas estou começando a achar que não.

Agora sei que eu cometi um grande erro quando disse a John que tinha desistido de tudo para estar aqui. Sinto que John sabe que me tem, que eu não tenho nenhum lugar para ir. Mas tenho uma ex-mulher, criança e casa para pagar e preciso trabalhar.

Eu vou continuar. Estou apenas no começo. Vai melhorar.

Um dia, após sete horas de treino, John explodiu de raiva. John pede para que eu jogue um set com Bernard. Ele me diz para jogar o melhor que pudesse, para realmente incomodá-lo. Ele também diz que se eu ganhasse mais do que três games no set, Bernard correria para casa.

Entre meu medo de John e minha compaixão por Bernard, joguei o melhor que pude, pelo medo da retaliação, e ganhei o set. Bernard está furioso comigo, quebrou a raquete e o pai ordenou que ele corresse para casa… clima fantástico.

COPA HOPMAN

É o torneio de exibição na Arena Perth e estamos sozinhos com Bernard; ele ganha três games. John não está lá e o clima está ótimo, de bom trabalho.

Bernard derrota Novak Djokovic em 6/4 6/4 no confronto pela Hopman. Fantástico. Foi simplesmente tênis, ao contrário de tudo o que eu tinha visto antes.

A dieta de Bernard é rigorosa, seja comendo ou bebendo. Na preparação das bebidas, eu preciso fazer 2 litros de uma mistura muito específica: em 500ml, 1,5 colher de XTEN, 2 colheres de Endura. Então preciso dar, para as partidas, duas pílulas 45 minutos antes, três pílulas grandes e brancas 15 minutos antes… durante o aquecimento, um pouco antes do começo da partida, um sachê azul e no meio da partida um sachê laranja. Se a dosagem do pó não for exata e as garrafas não chegarem no horário exato, eu levo bronca.

Preciso colocar as raquetes de Bernard em uma sala fria antes das partidas e retirá-las no último minuto. Eles estão sempre quebrando raquetes. Se John não gosta da raquete, ele a quebra.

SYDNEY

Bernard conquista seu primeiro título da ATP. Estamos todos comemorando. Tomic ganhou, brilhante. O sentimento é maravilhoso, todo mundo está muito feliz.

Nós ainda estamos no complexo, quando John aparece e nos mostra o dinheiro que Bernard ganhou com o título. Nós achávamos que ele estava mostrando para celebrar. Tipo, “Olha pra esse dinheiro, viva!”. Mas não. “Olha quantas taxas eu pago!”, ele diz. “Eu te pago demais. Vou diminuir seu salário.” Ele conseguiu nos desanimar. Inacreditável.

MELBOURNE

Australian Open chegou e minha namorada Sophie Lombard veio. Então tenho que mentir, sair do meu quarto do hotel às 23h para encontrá-la e acordar antes das 6h para levar suco de laranja fresco no quarto de Bernard, todas as manhãs.

Bato na porta e ele diz “Vai se foder!”, mas tenho que dizer “Você poderia tomar isto e suas pílulas, por favor, Bernard?”. A tensão está muito alta.

John parece estar com ciúmes ou algo do tipo.

Se consigo fugir para ver Sophie, me sinto um espião, olhando para todos os lados para ter certeza de que John não está me observando. É estranho. Algumas vezes eu não consigo vê-la porque ainda estamos trabalhando. Tensão, tensão, muita tensão. Todo o dia, é sempre uma loucura.

Bernard foi horrível durante o treino antes da partida contra Roger Federer. Ele me diz pra correr, jogar de tal jeito, me tratou como cachorro. Talvez seja a pressão.

Eu me lembro de Gold Coast, na tarde que Salva e eu ficamos juntos, bebendo uma cerveja no terraço, o único momento calmo para nós dois. Uma tarde, eu lembro que estávamos conversando e vimos Bernard descendo por volta das 23h. Ele nos diz “O que vocês estão fazendo aqui, vão dormir.” Depois Bernard nos contou que ele às vezes escapa à noite para ver seus amigos. Aí nós entendemos o porquê de levarmos 30 minutos todos os dias para tirá-lo da cama. Fora das quadras, Bernard tem problemas com sua Ferrari e a polícia; foi para baladas em todas os fins de semana.

O ZUMBI

Os Tomics chegaram em Mônaco e preciso pegá-los no aeroporto de Nice por minha conta. Bernard, enquanto isso, festejou como um louco depois da temporada australiana e, quando voltou, perdeu 2-3kg de músculos. Salva e eu o vimos e “Meu Deus, quem é esse cara?!”

Bernard não quer fazer nada agora. Salva luta para que ele faça alguns sprints. Eu assisto enquanto eles vão para a pista ao lado das quadras de tênis. Bernard corre como se estivesse em uma maratona, apenas um leve trote. O senhor 50%. Ele parece um zumbi.

Faltavam 5 dias para que os torneios de Marseille e Rotterdam começassem. Ele treinou por apenas esses cinco dias, não era suficiente. Quatro meses nessa e estou muito estressado. Nunca sei qual será o comportamento de John. Todos os dias, você nunca sabe o que ele fará ou como se comportará. É sempre estressante, todo santo dia. 

ROTTERDAM

Está frio, nevando e Bernard perdeu na primeira rodada para Grigor Dimitrov. Ele está jogando apenas 50% do que pode porque está cansado e não fez nada após o Australian Open. Naquela noite, Salva e eu fomos para o quarto de John… e John começou a chorar. Ele estava lacrimejando, estava realmente desapontado.

“Bernard não me quer mais, está acabado, eu devo ir pra casa,” ele diz. Salva e eu o consolamos… mas internamente queríamos que ele fosse pra casa, e que Bernard dissesse isso para ele. Todos os dias nós pensávamos que talvez aquele seria o dia em que Bernard dissesse para John ir para casa.

Não podemos dizer isso, mas queríamos. Nós sabemos que o problema é John, mas, como Salva diz, o único erro que você pode realmente cometer é o de tentar separá-los. “Se você se meter, estará morto. Deixa que Bernard faça isso sozinho” ele me diz.

MARSEILLE

John perde a cabeça porque não subi para pegar as malas. Ameaçou me largar em Mônaco e me excluir do time. Bernard desceu e disse “Calem a boca.” Ele pergunta porque estou fora do time e não acredita que o motivo seja porque não carreguei as malas de seu pai. Se não é comigo, John grita com Salva.

Mas de repente ele se esquece de tudo aquilo. Ele começa a dizer para Salva que quem chegasse primeiro em Marseille, antes das 19h, não pagava o jantar. Salva fez piada com a situação para amenizar tudo. John corre para o carro e começa a dirigir feito um louco. Estava dirigindo em uns 160 km/h. Muito, muito rápido. Ele queria mesmo ganhar.

Nós fomos para os nossos quartos e John nos diz para descermos em 20 minutos para jantar. John bebe dois whiskies, come um prato principal e uma sobremesa, então pede a conta, que foi de 150 euros. Ele dá o papel para Salva e diz “Você perdeu a aposta, então você paga”. Nós sabemos que ele não tem dinheiro. Eu me senti tão mal que, quando voltamos para o quarto, paguei os 20 euros do que consumi, assim como Bernard, que deu 15 ou 20 euros. Bernard não estava se sentindo bem com a situação também.

Treino logo de manhã e Bernard quebra uma raquete porque John está gritando com ele. Tudo voltou ao normal. John chama minha atenção, porque me viu tomando café da manhã com Jo-Wilfried Tsonga. “Quem paga seu salário, eu ou Tsonga?” Então ele desaparece. Não sei o que aconteceu com John, mas no dia anterior ao episódio de Tsonga e depois da partida contra Somdev Devvarman, John queria treinar. Bernard não queria escutá-lo. John grita comigo: “Você não jogará com ele então, Thomas.” Bernard diz para que eu jogue.

Estou em pé, com uma raquete e uma bola na mão, e não sei o que fazer. Bernard está falando comigo agressivamente, “jogue agora”. John está gritando “Não, não vai jogar”. Então eles começam a discutir e Bernard começa a destruir sua raquete… bam, bam, bam, bam, várias vezes na quadra.

INDIAN WELLS

Nós partimos para Indian Wells e estou em cargo da logística. Chegamos em Nova Iorque e Bernard não está com o visto correto. Ele conversa com os funcionários e então sai por quatro horas. Nós perdemos nossa conexão. Ele aparece e nós negociamos com a moça no balcão, que nos coloca no próximo vôo para Phoenix no dia seguinte. Bernard nos diz que podemos dormir no aeroporto, porque ele reservou um hotel em Nova Iorque e que irá festejar com seus amigos lá.  Salva e eu estávamos incrédulos, já que fomos esquecidos e dormimos numa cadeira. Eu tirei uma foto da situação. Incrível.

BRADENTON

John comprou uma arma de pressão no supermercado porque queria caçar. Eu rio e digo “Então tá, vamos comprar.” Nós pescamos, há um grande lago aqui e depois do treino nós relaxamos, pescamos e atiramos.

Então voltamos pra casa e Bernard diz “Quem é o machão agora? Vamos atirar uns nos outros!” Ele disse com tom de piada.

John disse que faria, então ele pega a arma e atira em Bernard. Suas pernas sangram. Então Bernard diz “Agora é sua vez… ou você faz, ou você não é homem.” Então John faz. Atiraram em Salva também. Agora eles dizem que é minha vez… mas eu fui em meu quarto primeiro e coloquei quatro ou cinco shorts, para que aí sim atirassem. Não senti nada. Nós filmamos e parecia divertido na época. Diversão louca. 

MIAMI

Bernard deveria treinar com Kei Nishikori, mas acabou virando um escândalo. Ele não queria jogar com Kei, então fez corpo mole. Eles estavam treinando para achar o ritmo, mas Bernard não queria, então perdeu por 6/1 em 10 minutos. Nishikori estava muito bravo. Seu técnico me disse que eles nunca treinarão juntos de novo. Bernard não gosta de treinar com jogadores que irão participar do torneio.

Bernard está ganhando contra Andy Murray. Deveria ser um bom jogo. Bernard começa bem, mas perde a quebra de 40-15 e depois disso desistiu da partida. Acho que 80% das derrotas de Bernie são ou por desistência ou por lesão, embora seu apelido seja ‘o tanque’ (tank machine). É assim que as pessoas o chamam pelas costas depois que John McEnroe disse que ele fez corpo mole propositalmente (tanked) contra Andy Roddick no US Open 2012. Todo mundo o zoa como “the tank”.

PARTE 2 DO DIÁRIO

Estou na equipe por muitos meses e mesmo assim a convivência não parece ter melhorado. Há dias bons e há dias ruins, mas a maioria dos dias são imprevisíveis, com John Tomic perdendo a cabeça e gritando com todos nós. É difícil para mim, mas eu realmente quero trabalhar com este time. Nós queremos que Bernard tenha sucesso, e ele é um bom garoto, mas é muito difícil. John não me paga bem e às vezes eu tenho que pagar a taxa pelo excesso de bagagem carregada nos vôos, mesmo estando carregando coisas do Bernard nas minhas malas. Mas eu continuo com eles.

Mas a pior notícia apareceu. Meu único e verdadeiro amigo no time, Salvador Sosa, me conta que ele deixará o time depois de Miami. Ele não aguenta mais as humilhações e gritos. John não o deixa trabalhar do jeito que ele quer e depois reclama com Salva sobre a condição física de Bernard.

Salva me disse que ele está de saco cheio. “Eu não aguento mais”, ele me disse. “25 anos vivendo no mundo do tênis e é a primeira vez que vejo algo desse tipo.” Eu me sinto sozinho com Salva deixando a equipe.

Ele era meu confidente e nos ajudávamos muito, porque todos os dias eram muito difíceis para nós. Preciso tentar e lembrar o que ele me disse, de seguir em frente, ser paciente e ficar calmo… mas é muito, muito difícil mesmo, porque cada vez mais estou fazendo mais coisas pelo time. Agendar passagens de avião, jogar com Bernard, dar suas bebidas, seus remédios, preparar suas proteínas, dar seu suco de laranja toda manhã, agendar quadras de treino, encordoar suas raquetes, agendar tudo para o time inteiro. É cada vez mais difícil.

Bernard faz algumas coisas estúpidas, mas ele é jovem. Mas o mais importante é que, pelas costas de seu pai, ele tentou proteger Salva e eu. Todas as vezes, depois que seu pai gritava conosco, ele vinha e dizia “Não, eu gosto de vocês, tá tudo certo. Eu estou bem com vocês, não se preocupem.” Quando ele fazia isso, estava tudo certo, mas algumas vezes Bernard ficava nervoso quando John nos atacava. Acho que John pensa que são três contra um. É por isso que ele perde a cabeça. E Bernard se preocupa com isso. Talvez John goste de controlar tudo.

Lembro de quando estávamos na Gold Coast bem no começo de tudo isso, John cortava a internet da casa para que nós não usássemos. Eu achava aquilo muito estranho. Ele não queria nos dar a senha para usar a internet. Nós só conseguimos a senha com Sara, irmã de Bernard. Ele precisava controlar as coisas.

John viu que Bernard, Salva e eu éramos um time dentro de um time. É por isso que acho que quando estávamos em Marseille, ele desapareceu porque queria cortar os laços. Ele queria que Bernard pensasse que havia algo de errado com o time porque ele não estava ali. Queria mostrar que éramos uns perdedores sem ele.

Era a mesma coisa até quando eu não estava por perto. Quando estávamos em Monte Carlo, eu dormia na minha casa, e não junto com eles. Então John não podia me controlar como quando estou no hotel com eles, me ligando de dois em dois minutos, o tempo todo, em qualquer horário, para fazer isso ou aquilo.

Quando estou em casa, ele sabe que estou com Sophie. Nessa época, ele me ligou no meio do jantar, pedindo para que eu fosse até ele, pegasse algumas raquetes e levasse para um encordoador na manhã seguinte. Eu digo “Mas John, eu posso pegar essas raquetes amanhã às 9h, eu estou jantando com minha família agora” e ele diz “Não, venha pegar agora, venha pegar agora!” Então eu fui. Acho que ele não gosta de ter menos poder e ele precisa desse controle constante.

MONTE CARLO

Chegou um cara novo, Josko Sillic, que já trabalhou com eles antes e veio substituir o Salva. Eu fiquei encarregado de cuidar de seu vôo e de pegá-lo no aeroporto. John me disse que Josko não viria para Monte Carlo, mas depois reclamou comigo porque não fui pegá-lo no aeroporto. John está muito nervoso, mas para mim a tensão é menor, já que estou em casa.

Nós treinamos bem como um time, mesmo que John nos xingue às 8 da manhã todos os dias.

Uma tarde, um dos tenistas desenhou algo sobre ‘O incrível pai de Tomic’ e todos estavam rindo e zoando da cara dele. John até riu, mas com certeza nunca mais falará com o cara que fez os desenhos.

A gritaria continua. Os outros tenistas e seus técnicos viram como fui tratado nos últimos 6 meses e me perguntam como aguento tudo isso. É uma pergunta justa. Digo que encontro forças para aguentar porque tenho uma namorada e crianças (Sophie tem duas e eu tenho um garoto) para criar, além de uma casa para pagar. Além de querer aguentar até o fim da temporada, para que eu fique mais conhecido no circuito.

Não é um bom dia. Bernard foi derrotado na primeira rodada do Monte Carlo para Alexandr Dolgopolov, 6/2 6/4.

BARCELONA

Sem John. O que mais posso dizer? O clima na equipe está fantástico! Bernard tem um pelo da coxa infectado, mas ganha sua primeira partida contra Kenny De Schepper em três sets. Avançou para a segunda rodada contra o argentino Juan Monaco. No dia seguinte não jogou bem e foi derrotado, 6/0 6/2 em menos de 50 minutos.

Josko está conosco em Barcelona e Bernard pergunta para ele, depois do jantar, se poderia nos deixar sozinhos por um momento. Fiquei pensativo sobre o que deveria ser, mas aí ele me mostrou um vídeo no YouTube que falava sobre ser bem sucedido. Era um vídeo motivacional. Foi um momento muito honesto de Bernard. Eu disse para ele que ele poderia fazer aquilo, mas precisaria trabalhar duro, se quisesse ser bem sucedido e atingir o melhor de seu tênis. “Você não pode contar apenas com seu talento” eu digo, enquanto conto minhas experiências de ter jogado contra Rafael Nadal, que me impressionou tanto com seu profissionalismo e rigor. Ele diz “É, você está certo. De agora em diante vou treinar todos os dias. Todos os dias mesmo.” Fiquei feliz. Acho que finalmente achamos uma solução, ele estava evoluindo. Após uma hora e meia de conversa honesta, ele de repente diz “Ok, Thomas, agora nós festejamos e bebemos juntos para selar essas bonitas palavras, para que aí nos comecemos o verdadeiro trabalho.” Respondi “Não, agora nós vamos pros braços de Morfeu, nós vamos comemorar lá”, querendo dizer que precisávamos dormir. Bernard me olha esquisito e pergunta “Quem é Morfeu?” Ele acha que é uma garota que está no torneio.

O SOCO

Na segunda-feira antes de Madrid, treinamos muito forte por 5 minutos, mas Bernard não está escutando seu pai e John, do nada, para o treino. “Acabou o treino!” ele grita. Ele me diz para ir embora e Bernard treinou sozinho.

Na terça-feira estávamos na quadra 10 e aconteceu a mesma coisa. John para o treino, que desta vez durou 10 minutos, depois que Bernard disse “Você pode sentar no banco, mas não abra a boca. Não dê nenhum conselho, eu não preciso de você.”

John mais uma vez diz que o treino havia terminado e me disse para guardar as raquetes na bolsa. Bernard me diz para ficar, mas John me lembra que o treino havia terminado. Estou lá de pé, sem saber o que fazer. John diz a Bernard que, se ele não está disposto a ouvir, então não jogará. Bernard veio até a rede e John está gritando com ele, então Bernard respondeu e disse para que ele se sentasse mais uma vez e ficasse calado.

John está furioso e então POW!, um soco. Eu não acreditava no que tinha presenciado. Bernard não diz nada, mas tem lágrimas em seus olhos. John caminha para longe, coloca duas raquetes na parede e então as chuta, quebrando-as. Quebrou as duas raquetes e disse para Bernard que ele não jogará nenhum torneio nas próximas três semanas. Pediu para que eu cancelasse todas as reservas de avião e hotel. Bernard presencia tudo e então quebra sua raquete. Meu Deus, essas pessoas são loucas. Josko está catando as bolinhas pela quadra, e parece não ter visto nada daquilo acontecer. Eu quero ajudar Bernard porque o vi chorando caladamente. Eu realmente queria ajudá-lo. Eu lembro de ter dito em Marseille “Você tem que dizer para seu pai que você não o quer mais”, eu não aguentava mais ver aquilo, mesmo que perdesse meu emprego. Dá pra ver que Bernard está estressado o tempo todo, já que nunca saberá com o seu pai estará naquele dia. Vi tudo isso por 6 meses e estou realmente triste por Bernard, porque realmente acho que por dentro ele quer fazer algo, mas na realidade ele não consegue. Quando ele diz para seu pai “Não, sente aí e não fale comigo”, você pode ver que ele está tentando parar com tudo aquilo, mas John está sempre o manipulando.

Sim, quebrei a regra que Salva havia imposto, de não se meter no assunto de pai e filho. No começo, tentei mostrar o caminho pro Bernard, sem dizer nada… mas quando vi aquele soco, não consegui me segurar mais. Eu disse para Bernard “Eu sei que ele é seu pai, mas faça alguma coisa. Isso não pode continuar.”

John estava muito nervoso em Monte Carlo, prevendo que Bernard diria para que ele fosse embora. A tensão estava muito alta.

MADRID

Na manhã de nossa viagem para Madrid, passei na casa dos Tomics para ajudar John a arrumar suas malas, assim evitando o que aconteceu em Marseille. John está na janela e diz, “Não precisamos de você, vá comprar leite!” e eu respondo “Não, nós vamos nos atrasar.”

Sophie precisou levar John e eu para o aeroporto porque John não queria pagar táxi, enquanto Bernard e Josko pegaram uma carona com um amigo de Bernie até o aeroporto de Nice.

Cheguei à casa dos Tomics às 10h20. Às 10h40 John aparece, espumando de raiva e dizendo “Por que não foi comprar leite? Por que não subiu para pegar minhas malas?”. Lá estava eu sendo humilhado na frente de minha namorada. Então eu saio do carro e digo que não aguentava mais ser tratado daquele jeito. Ele me trata como cachorro!

Ele perde a cabeça e me diz que não irei a Madrid, que estou despedido e que não me pagará. Minha namorada, que viu aquela cena toda, sai do carro e diz para John “Você me fez vir até aqui, tenho coisas melhores para fazer. Minhas crianças estão sozinhas em casa, então trate de entrar no carro agora!” Ele sai para ligar para alguém e espero uns 5 minutos para acalmar os ânimos. Pego suas malas e coloco no porta-malas. Felizmente o caminho para o aeroporto é curto.

Então um escândalo no aeroporto. Todos ali estão chocados com John, que começa a gritar comigo, dizendo que ele irá cancelar minha passagem. Depois de 10 minutos, volto para o carro, mas com vontade de dizer para John tudo o que penso sobre ele. O avião finalmente saiu do chão, mas John começa a gritar comigo novamente. Incrível. “Ok, vamos resolver isso fisicamente, no mano a mano, em Madrid, já que não estará em seu país. Veremos se você é tão esperto assim”, ele me diz.

Nós nos dirigimos para o hotel em Madrid. Na frente do hotel, John me diz para deixar minhas malas e segui-lo para fora dali. Nós fomos para a lateral do hotel. Pensei que ele pediria desculpas pelos insultos. Ele não parava de olhar para os lados, o que achei muito estranho. Não havia ninguém por perto. Ele me diz “Fala na minha cara de novo o que você me disse hoje de manhã”. Eu disse mais uma vez que ele se acha “o cara”. Ele cospe em minha cara. Eu limpo meu rosto e ele vai embora. Então digo mais uma vez que ele se acha o machão, o maioral, e aí ele virou rapidamente e me deu uma cabeçada. Lembro de ter gritado por ajuda enquanto caía.

Então ele continua a andar de volta para o hotel, como se nada tivesse acontecido. Depois me contaram que perdi a consciência por uns minutos. Quando voltei, vi Josko e o tenista Alexandr Dolgopolov. Alguém ligou para a polícia e para a ambulância.

Me levaram para o hospital de Madrid. Foi tudo muito confuso. Eu não falo espanhol. Fiquei 6 horas ali, fizeram testes, deram pontos em meu rosto, mas a dor que me preocupava era a que eu sentia no pescoço. 

Bernard apareceu para me visitar junto a Josko, e me diz que seu pai foi longe demais, que o mandaria para casa num avião no dia seguinte e que não queria mais a presença de John. Ele me disse que queria ficar com apenas Josko e eu. Mais tarde, fui na polícia e fiz um boletim de ocorrência. No dia seguinte, no café da manhã, houve uma mudança de postura de Bernard, que me disse que se eu processasse seu pai, ele estaria no lado de John e que eles poderiam pagar por um bom advogado, enquanto eu não. Ele estava certo.

No outro dia, nós todos estávamos na audiência. Estou sozinho, perdi, sem advogado. Meu nariz estava todo costurado e meu pescoço imobilizado. Fora da audiência, o advogado de John tentou negociar. Ofereceu 3000 euros de compensação. Eu recusei, então John argumentou que foi tudo por defesa pessoal.

Recebi uma mensagem de Bernard, que diz estar arrependido e muito triste pelo o que aconteceu. Fiquei surpreso com aquela mensagem. Então recebi outra e uma terceira, com um convite para que eu e minha namorada encontrássemos com ele em Monaco. Josko me ligou e disse que “não importa o que aconteça, não vá para esse encontro. É uma armação, John está manipulando Bernard e ele quer que você perca a cabeça”. Não fui para o encontro, e então não tive mais notícias de Bernard.

Voltei para Monaco e fiz vários testes, vi especialistas, consultores esportivos e tudo mais, para ver se era algo mais sério do que eu pensava. Tenho todos os documentos escritos comigo, contando sobre as lesões que tive. Não é uma boa leitura para se fazer.

Estou deprimido agora, não estou comendo direito. Perdi 5 quilos em duas semanas. Claro que não tenho mais emprego agora. Decidi ir para Roland Garros tentar achar um trabalho. Li no L’Equipe que Marion Bartoli não tinha mais um técnico e um parceiro de treino. Seria ótimo conseguir trabalhar com seu time. Ela é fantástica. 

John estava banido de Roland Garros e, toda vez que tentava, ele era mandado para fora. Mais tarde, em Eastbourne, vi John. Me senti muito inseguro, olhava para trás a cada 30 segundos. Então pedi apoio da ATP, que mandaram um segurança para me seguir de longe. Ele deveria estar banido, mas ele estava lá.

WIMBLEDON

John foi suspenso pela ATP por pelo menos um ano, o que o impedia de ir aos torneios.

Uma noite, eu estava andando e parei em um Starbucks. Naquela época eu não sabia da decisão da ATP. Então eu estava no telefone, eis que sinto alguém puxando a cadeira da minha frente e sentando em minha mesa. Era Bernard. Ele queria falar comigo. Eu estava com muito medo, sempre olhando para trás, verificando se John não estava por perto. Bernard me diz que estava muito chateado com a decisão da ATP de banir seu pai, e que ele acha que a ATP deveria protegê-lo. Parei para pensar e quase perguntei se ele lembra o que seu pai havia feito comigo. Ele já tinha esquecido que um mês e meio atrás eu estava no chão de Madrid, inconsciente e cheio de sangue por causa de seu pai.

Ele se desculpa mais uma vez pelos atos de seu pai, mas me diz que John é seu pai e que ele o ama. Eu o digo “Ok, você pode amar seu pai, mas pelo menos admita os erros que ele cometeu.” Ele concorda e pergunta com estou indo com Bartoli. Está fantástico. Amo trabalhar com ela e sua equipe. Eles são tão profissionais, é desse jeito que as coisas deveriam ser. Ela é uma tenista fantástica, sempre disposta a ouvir, dando o seu melhor e procurar melhorar seu jogo. Ela tem uma atitude ótima.

Eu digo que tudo está bem. Então nós nos despedimos e desejo boa sorte para ele no torneio. Percebo que ele estava aliviado em falar comigo e não ter recebido uma reação agressiva por minha parte. Parecia mais relaxado.

Estou com Marion e acho que nós trabalhamos bem juntos, pacificamente e de um modo muito divertido. Ela é muito inteligente, amável e trabalhadora. É uma mudança gigantesca comparada com o que eu vivia. Todo seu esforço e talento a levou para a final. Fui entrevistado pela imprensa por motivos positivos, e não pelo o que aconteceu com os Tomics. Marion ganhou o título. Eu não poderia estar mais feliz.

Por 7 meses com os Tomics, quase todos os dias pareciam pesadelos. Estou feliz de ter guardado este diário, porque as pessoas não sabem o que aconteceu. Eu não conseguia mais aguentar o jeito que ele falava comigo. Não havia respeito algum por mim. Acho que a pior coisa para mim era acordar todos os dias tentando fazer o meu melhor por Bernard e mesmo assim ele não ter respeito algum comigo, nem um “uau, isso foi bom!”, nem nada. Quanto mais eu trabalhava, menos ele me pagava, e menos respeito eu recebia. Eu fazia 90% da agenda diária de Bernard, enquando John só aparecia na quadra para gritar e dizer que seu filho não era bom em nada.

Desejo o melhor para Bernard.

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13 comentários sobre “Diário de Thomas Drouet

  1. Que horror…
    Assédio moral absurdo, já tive uma chefe que me importunava o tempo inteiro, dizia que tinha feito meu trabalho, quando estava bom e e me esculhambava quando ela tinha feito um trabalho ruim dizendo que era minha culpa…
    Pedi demissão e minha vida melhorou muito!
    Sorte para ele!

  2. Aliny,
    obrigada por esta tradução!! Já tinha começado a ler o original, mas sempre dava preguiça de terminar… coitado do Bernard, espero que ele tenha coragem e maturidade para tirar de vez o pai de sua equipe e conseguir o sucesso compatível ao seu talento. desse jeito, ele vai acabar desistindo da carreira precocemente, não vai aguentar toda essa pressão.
    E a Sara Tomic, também passa por isso? Quem a acompanha?

  3. Pingback: Diários, declarações e casais | Sheiloka Fala de Tênis

  4. (“Ok, Thomas, agora nós festejamos e bebemos juntos para selar essas bonitas palavras, para que aí nos comecemos o verdadeiro trabalho.” Respondi “Não, agora nós vamos pros braços de Morfeu, nós vamos comemorar lá”, querendo dizer que precisávamos dormir. Bernard me olha esquisito e pergunta “Quem é Morfeu?” Ele acha que é uma garota que está no torneio.) – [Ri demais nessa parte, hahaha!] 🙂

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