Número 3 do mundo? Não, é preciso ser um waffle para ser visto pelo Brasil

Ser número 3 do mundo é para poucos. Ainda mais nas duplas, onde brincamos que o terceiro do mundo é o primeiro dos mortais, pois na sua frente estão apenas os irmãos Bryan, os melhores duplistas da história. Nós brasileiros somos mimados quando se trata disso, já que tivemos Bruno Soares ocupando este posto pouco tempo atrás e agora temos Marcelo Melo. O melhor mimo possível.

Em Roland Garros, a partida de semifinal de Melo foi a primeira de duplas transmitida inteiramente pela emissora responsável nos canais televisivos, uma vez que as quartas entre Melo e Soares foram para o site. Oportunidades para outras partidas serem transmitidas não faltaram. No melhor desempenho da dupla no Grand Slam francês, o confronto com o espanhol Garcia-Lopez e o francês Roger-Vasselin, que defendia o título, não foi transmitido. Enquanto Djokovic x Kokkinakis, a atração principal da rodada, estava no canal exclusivo de uma operadora e o site mostrava uma partida do feminino, Goffin x Chardy estava nas telas de todo o Brasil no canal principal.

Dois flashes da partida de Melo foram mostrados durante a transmissão. Flashes tão rápidos que não dava tempo de avisar no Twitter que estava acontecendo. De verdade, eu tentei. Enquanto o número 3 enfrentava o atual campeão do torneio, acompanhávamos a fácil vitória de Chardy. Sem querer desmerecer Goffin ou Chardy, mas não é partida de canal principal no Brasil, ainda mais quando o melhor tenista brasileiro da atualidade, com chances reais de título, estava em quadra. De novo, o terceiro DO MUNDO.

O medo das emissoras de transmitir uma partida de duplas ao invés de qualquer outra de simples ainda existe. Transmitir um Chardy x Goffin é uma escolha segura, mas não é saudável para o circuito de duplas, principalmente em um país com tenistas de ponta na categoria. Mostrar para o público que você tem a opção de transmitir a partida, já que flashes passaram, mas que você não quer, é dizer que não interessa. Que não dá ibope. Que o brasileiro em quadra não é mais importante do que um Chardy x Goffin.

Não é saudável porque só alimenta a impressão que uma grande parte do público atual tem das duplas: não é tão importante assim. Como mostrar para o país que o Brasil é uma potência na categoria, que possuímos três tenistas de alta qualidade disputando os maiores torneios e que aconteça uma identificação entre os novos telespectadores e os tenistas, para que o público passe a aprender, conhecer, torcer e acompanhar se as partidas são facilmente trocadas por qualquer uma outra que esteja acontecendo no momento?

Isso não é de agora e muito menos exclusividade da tal emissora. Já vimos acontecer em outras situações com Bruno Soares, André Sá e o próprio Marcelo Melo. Agora, na semifinal e com sorte na programação, já que o horário de sua partida bateu com a ‘janela’ antes das semifinais femininas, o mineiro estava em um dos canais de televisão.

Pelo menos uma semifinal e sorte com a programação é necessária para que as duplas brasileiras sejam destaque na televisão. Antes, flashes das partidas, comentários vagos e um bloco de um minuto nas mesas redondas do esporte era o espaço ‘mais do que suficiente’ para destacar o ótimo desempenho de Melo, Soares e Sá no torneio. Enquanto isso, entrevistas com adolescentes franceses sem ingresso para entrar nas quadras e que não falavam inglês, uma olhadinha na barraca de waffle e todos os seus sabores ou cotação de preços da loja oficial do torneio ganhavam um largo espaço no ar.

Eis que, nesta quinta-feira, Marcelo e Dodig atingem a final de Roland Garros e tudo muda. O canal que transmitiu a semifinal pregou palavras de amor pelas duplas. O espaço nas mesas redondas cresceu e igualou o tempo do waffle. Assim, do nada, o espaço passa de nada para algo. Mas não dura muito. Os comentários vazios acabam e voltamos para as ruas de Roland Garros para ver a movimentação no complexo e observar uma das paredes, que mostra a chave de simples desenhada. É difícil esquecer que antes, entre os flashes das partidas, um dos narradores mostrava alívio quando as câmeras voltavam para as partidas de simples. “Aí, sim!” bradava a voz que comandava a transmissão.

Ser o número três não é o bastante. Ser parte de uma das duplas mais perigosas da atualidade não é o bastante. Ter chances de título não é o bastante. Aqui, é mais fácil ser um waffle com nutella.

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6 comentários sobre “Número 3 do mundo? Não, é preciso ser um waffle para ser visto pelo Brasil

  1. Acho incompreensível tamanho desdém com as duplas. Sá, marce e bruno já estão aí há um tempão. Não é mais novidade o fato de estarem entre os melhores. Dúvido que a partida de duplas de um dos nossos duplistas não dê mais ibope do que uma de simples entre dois caras que não conhecidos pelo grandepúblico. Creio que faltou interesse mesmo de exibir as partidas.

  2. O compromisso da emissora não é com o “circuito de duplas”, mas sim com o telespectador. Por razões óbvias, quem tem obrigação de dar mais espaço aos duplistas é a ATP, que até hoje não realiza a transmissão online dos jogos do “circuito de duplas”. Achei legítima a escolha da Bandsports, que não cedeu ao famigerado “pachequismo”. Parabéns ao Marcelo pela carreira e pela vitoriosa campanha, mas a realidade é que jogos de duplas não despertam o mesmo interesse que os de simples. Um dos fatores que ajudam a explicar tal situação é que muitos duplistas não conseguiram ser bem sucedidos quando tentaram a sorte como simplistas. Por exemplo, Marcelo Melo jamais conseguiu ser um dos 300 melhores simplistas do mundo. Goffin, da terra do waffle, é top 20. O público em geral tem a impressão de que os duplistas teriam um ranking muito pior se os simplistas também se dedicassem às duplas. Inúmeras vezes simplistas já derrotaram duplistas na Davis, Indian Wells ou Olimpíadas. Eu não me lembro de ter visto um especialista em duplas vencer um especialista em simples em grandes torneios. Por curiosidade, você se lembra? Aí sim. Valeu!

    • Em momento algum eu disse que o “compromisso da emissora é com o circuito de duplas” e não existe nenhuma situação que seja explicada por “duplistas que não conseguiram ser bem sucedidos quando tentaram a sorte como simplistas”, até porque a discussão não é essa. E pena que você não lembra do Paes tomando a medalha de bronze do Meligeni nos Jogos Olímpicos, do Nestor vencendo Edberg, Zimonjic vencendo Agassi e Kiefer… A lista é longa, mas a discussão, de novo, não é essa. Valeu. 🙂

      • Falando em pachequismo, acho que o Nestor ganhou do Guga numa Copa Davis. E que o Bopanna deu uma surra no Ricardo Mello. Mas a discussão não é essa.

  3. O que explica a quadra central de Indian Wells ficar lotada nos jogos de Federer/Wawrinka? Outro bom exemplo é Monaco/Nadal em Buenos Aires. Tops despertam a atenção do grande público, o que atrai patrocinadores e aumenta o espaço na mídia. Não por acaso, a Lenglen estava vazia hoje, sendo que o groundpass custava apenas 20 euros. Não lembro dos exemplos que vc citou, apesar de todos serem muito recentes. Tenho certeza que a lista é longa. O exemplo do Meligeni deve ter sido piada, tendo em vista que ele terminou o ano de 1996 como 93o do ranking e a maioria dos tops não participou do torneio. Falando sobre Kiefer, Paes, Olimpíadas…Em 2004, Bhupati/Paes perderam nas semis para Kiefer/Schuttler e na disputa da medalha de bronze para Ancic/Ljubicic. Curiosamente, nenhum dos quatro esteve entre os 40 melhores do ranking de duplas. Mas a discussão não é essa. Valeu!

    • Hahahahahaha é engraçado ler essas coisas, você realmente nunca leu um texto daqui, parece que tá me contando uma novidade. Bacana, cara, boa noite. Como você mesmo percebeu, essa não é a discussão.

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