O teatro dos sonhos

Hoje não teremos uma notinha de resultados. “O brasileiro Marcelo Melo e seu parceiro, o croata Ivan Dodig, derrotaram os irmãos Bob e Mike Bryan”, essas coisas aí vocês já sabem. Temos um brasileiro campeão de duplas em Roland Garros, notinhas não são pra isso. Hoje escrevo o que se passa pela minha cabeça, que está uma verdadeira bagunça, como vocês verão no andar da carruagem. Primeiro, começo falando dos irmãos. Não dos Bryan, mas sim dos Melo.

1º ato: O Irmão
Daniel Melo é irmão e técnico de Marcelo. Foi tenista, atingiu a 79ª colocação nas duplas mas encerrou a carreira por lesões. De 2007 pra cá, vem ajudando o irmão com o que aprendeu no circuito. Daniel foi responsável pela transição de Marcelo para as duplas. A altura, o estilo de saque, a rapidez em quadra, a qualidade dos voleios e tudo que um duplista precisa, Marcelo sempre teve e seu irmão percebeu cedo. Recebendo o incentivo para fazer a transição, o gigante, na altura, no talento e no coração, seguiu o conselho e foi para as duplas, estando onde está agora. Além do papel de técnico, que sinceramente continuo achando o melhor do Brasil, Daniel é irmão, é apoio e principalmente fundamental nisso tudo. Se o troféu de Roland Garros hoje carrega mais um nome brasileiro, Daniel Melo tem uma mão (ou duas!) em tudo o que aconteceu.

2º ato: O Gigante e o Tempo
Queria poder descrever melhor o quanto Marcelo Melo merece isso, mas não sei se palavras são o suficiente. A sensação de bater na trave por tantas vezes e não conseguir deve ser, de fato, frustrante, mas também é um aprendizado. Momentos assim construíram toda a confiança e a solidez do mineiro para chegar lá, no posto mais alto em um Grand Slam. Podemos citar a final de Wimbledon 2013, que enfrentaram os mesmos irmãos Bryan. Ganharam o primeiro set, mas os gêmeos, sempre arrebatadores, viraram e levaram o caneco para a casa. Doeu, porque foi a primeira final. Doeu, porque começaram bem. Doeu, porque escapou. Mas eram os Bryan. Era a primeira final. Era um aprendizado. E agora cá estamos, vendo algo que era questão de tempo.

3º ato: O Guerreiro Balcã
Daí temos Ivan Dodig, o primeiro croata a conquistar um título das modalidades masculinas em Roland Garros. De novo, um pouco de história. Ivan soube que queria jogar tênis desde o momento que tocou uma raquete, quando tinha 8 anos. Natural de Medjugorje, uma pequena cidade na Bósnia e Herzegovina, o pequeno Ivan, que já sonhava em ser tenista, veio de família pobre e sabia que teria que ganhar partidas, para então ganhar dinheiro e assim seguir com seu sonho. Um guerreiro desde pequeno, Ivan nunca perdeu essa essência. Andava por 3 horas para poder treinar. Dormia em um velho carro para economizar o pouco dinheiro. Lutava. Hoje, com Martin Stepanek e Stjepan Medak, a equipe que sempre o apoiou desde o minuto que pisou numa academia da Alemanha, ele segue lutando em quadra e Ivan, o Coração de Leão, é campeão de Grand Slam.

4º ato: A Perfeição
Ah, a final. Já pararam pra refletir tudo o que aconteceu nessa final? Eu não, a ficha ainda não caiu, mas é incrível. Marcelo e Ivan jogaram de igual para igual, do início ao fim, no mais alto nível, com a melhor dupla da história. Da história mesmo. Dos caras que sinto o maior prazer do mundo em poder viver na mesma época que eles. Os Bryan tinha tudo para levar o título, estavam fazendo um torneio sólido, consistente, algo que não faziam há muito tempo. Roland Garros é o Grand Slam que os gêmeos têm menos títulos e que sempre apresentaram problemas, seja instabilidade, mental ou quaisquer outros problemas, alguma coisa acontecia e os irmãos não conseguiam produzir o melhor tênis possível. Mas hoje, não. Hoje foram perfeitos. Foram simplesmente eles, os Bryan.

E Marcelo e Ivan estavam ali, no mesmo nível, na mesma perfeição. A tática foi brilhante do início ao fim. A pressão exercida, favorecendo a devolução, que esteve impecável desde a estreia, foi executada de modo perfeito. Dodig estava em todas as bolas do fundo, usando seu forehand e sua inteligência tática. Melo estava em todas as bolas da rede, mostrando rapidez e técnica impecáveis. Tudo funcionou como deveria, do único jeito possível e quase que um tutorial de como derrotar os Bryan.

5º ato: Era Digital
E por fim, algo que me deixou muito feliz. A hashtag #somostodosgirafa, que eu e Alexandre Cossenza ficamos ensaiando nos bastidores por um bom tempo, meses e meses, apareceu em programas de televisão, rádio e até no discurso de campeão de Melo. Estar ali no discurso, mesmo que em outras palavras e não diretamente, é um orgulho gigante, não só pra mim mas para o blog em si. E construir uma torcida unida, com várias girafinhas surgindo no twitter, foi incrível de ver. Nós gostamos SIM de dupla. Nós queremos as duplas na mídia. E eles merecem tudo, todo esse apoio e essa atenção sempre. Pena que só conseguimos mostrar isso em momentos como esse.

Epílogo
Tudo isso estava e ainda está rondando a minha cabeça no momento. Não consigo organizar os pensamentos, mas isso é algo bom. Sinal de que tem muita coisa positiva acontecendo. Não poderia estar mais feliz pelo Marcelo, Daniel, Ivan, Martin e Stjepan no momento, personagens dessa peça. Roland Garros sempre me pareceu o palco ideal para essa apresentação. Meus sinceros parabéns e tenho certeza de que não pararão por aqui. Tem muita coisa boa vindo por aí, não só para Melo e Dodig, como para Bruno, Peya e André Sá. Seguimos com tudo!

*E cai a cortina, encerrando o teatro mental de Aliny Calejon*

Anúncios

3 comentários sobre “O teatro dos sonhos

  1. Louvável não só seu amor pelas duplas mas também seu empenho em divulgá-las. Como praticante e e entusiasta do esporte, naturalmente me interesso, geralmente, mais pelos jogos de simples, pela própria formação como simplista. Mas é inegável o nível altíssimo que os duplistas HÁ MUITO TEMPO, vêm apresentando. Sempre acompanhei (quando a tv assim nos permite ou os stream “mandrake” funcionam) e é inegável que o jogo de hoje mostrou que uma partida dessas não perde em nada, seja em emoção ou técnica apuradíssima, para os grandes jogos de simples. Acho que a última vez que me envolvi e torci tanto num jogo de tenis tinha sido Bellucci x Djoko em Madrid, 2011!
    Viva as duplas!

    Parabéns Marcelo
    Parabéns Ivan

    Parabéns Aliny

  2. Ótimo post.
    Você por acaso tem link do discurso do título? Infelizmente por ser no feriadão não consegui acompanhar o jogo!
    O Melo merece muito, tava sempre chegando e agora finalmente conseguiu esse título. Torçamos pelo Soares levar um GS também.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s