Aqui, na Croácia e nos Estados Unidos

Três dias após a conquista de Marcelo Melo e Ivan Dodig em Roland Garros, um feito incrível tanto aqui, no Brasil, quanto lá, na Croácia, e as coisas ainda não tomaram um rumo positivo. Pelo menos na mídia.

Por aqui, Marcelo Melo tornou-se o primeiro brasileiro a conquistar o título de duplas masculinas no Grand Slam francês. Desde 2012, o Brasil conquistou três Grand Slams, com dois de Bruno Soares nas duplas mistas. O tamanho da conquista não é novidade no país e, ainda sim, vemos coisas como nas imagens abaixo.

ricardo folha twitter

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É claro, sabemos que muitos dos jornalistas que trabalham nos grandes veículos de comunicação não são especializados no tênis. Ainda sim, a falta de conhecimento, vontade ou o mínimo de pesquisa inundam os jornais e canais de televisão. Como um tenista aposentado ou um cantor ganhariam um Grand Slam? Entre comentários do tipo “Poxa, pensei q vcs estivessem falando do Wawrinka ! Esse sim foi campeoníssimo em Roland Garros o resto é resto!”, que ocupam o mais alto lugar nas caixas de comentário dos grandes portais, é de se pensar o porquê da conquista de Melo agora e de Bruno Soares antes não parecer tão importante quanto a de Stan Wawrinka ou de Serena Williams para o público e a mídia.

Saindo dos grandes veículos esportivos, tivemos o site de Roland Garros, que também anunciou a vitória de Ricardo Mello em Roland Garros. O site oficial do TORNEIO não sabe quem ganhou. O mesmo torneio que, na primeira semana, não disponibilizava quadra para os duplistas, nem mesmo para aquecimento pré-partida, fazendo com que estes fossem para um outro clube, incluindo Melo, número 3 do mundo.

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A reflexão de ‘por que dupla é deixada de lado?’ chegou também na Croácia. Alguns amigos de lá me contaram, após a vitória de Melo e Dodig na semifinal de Roland Garros, que o principal canal do país, o HRT, não pretendia transmitir a partida. Após muitas reclamações, os croatas apaixonados por tênis conseguiram o seu direito. Enfim, cá estamos agora, três dias depois, com Ivan Dodig campeão de Grand Slam. O ‘azar’ de Ivan foi que, no mesmo dia em que conquistou o título, a final da Champions League ocorria e Ivan Rakitic, também croata, marcou um gol. No domingo, quando chegou no aeroporto de Dubrovnik com a taça de campeão, apenas um repórter o esperava e a península balcânica inteira estava em Sarajevo, onde Papa Francisco fazia sua visita.

Medjugorje, uma pequena cidade religiosa na Bósnia e Herzegovina, conta com outro campeão de slam. Com pouco mais de quatro mil habitantes e a atração principal sendo a aparição da Virgem Maria, Marin Cilic, assim como Dodig, é filho da cidade e conquistava um título de Grand Slam nove meses antes. Cilic foi recebido como herói, tanto na Croácia quanto na Bósnia, com dezenas de repórteres e fãs o aguardando no aeroporto e participando de carreata, com o campeão acenando e se sentindo em casa. Dodig, por outro lado, respondeu às perguntas do repórter solitário, agradeceu a Virgem Maria e foi pra casa dar um abraço em seus pais, esposa e filho. Os jornais do país encheram páginas e páginas de notícias da Champions League e pouco se deu importância para o tenista.

Longe dali e dias antes, os Estados Unidos também passavam por algo parecido. Apesar dos gêmeos Bob e Mike Bryan, os melhores da história, estarem buscando o 17º título de Grand Slam, nenhuma das três emissoras responsáveis pela transmissão de Roland Garros estavam mostrando ao vivo. Ao invés disso, repetições de outras finais de tênis rolavam nos televisores americanos. Até o Tennis Channel, que, como diz o nome, é especializado em tênis, não transmitiu a partida. Ora, se até mesmo os Bryan, 16 vezes campeões de Grand Slam, medalhistas de ouro, campeões de Copa Davis, quatro vezes campeões no ATP Finals e donos de 106 títulos no total não merecem a atenção, quem merece?

Alexander Peya me disse uma vez, com um sorriso um tanto quanto triste no rosto, que austríacos não gostam de tênis. A brincadeira do parceiro de Bruno foi sincera e com um imenso fundo de verdade. Mesmo com tantos duplistas campeões de Grand Slams em atividade, o público não se interessa pela categoria, dando o pouco da atenção que o esporte recebe para Jurgen Melzer e Dominic Thiem. Duplas não é tênis por lá também, mesmo sendo o carro chefe do país no esporte.

É claro que não espero capas de revistas, aparições no Jô ou um café da manhã com Ana Maria Braga, sou realista. Odeio ver o lado ruim de algo tão positivo, mas não consigo não pensar na questão do merecimento. Todos os personagens acima mereciam uma atenção maior do que nomes errados, informações incorretas, um repórter local, uma notinha no rodapé jornal ou 24 horas de um mínimo de atenção. Vemos isso em muitos outros esportes e com outros tantos personagens. Todos seguem conquistando novos títulos, quebrando recordes, representando o país e reescrevendo a história. Enquanto isso, pouco se fala sobre. É tão rotineiro e sem sentido que chego a me perguntar se quem está errado são os atletas, e não a mídia.

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Um comentário sobre “Aqui, na Croácia e nos Estados Unidos

  1. Nossa, fiquei muito de cara agora! O girafa merece muito mais! E o pior foi o site de RG dar notícia errada e o Tennis Channel não passar a final ao vivo. Impressionante! Acho que deveriam trocar o nome do canal pra Singles Channel, vai ficar mais apropriado. Ainda bem que temos agora o podcast Quadra 18 pra por tudo no seu devido lugar. Parabéns pelo blog e no empenho no podcast.

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