Nesta última quarta-feira, a maior dupla da história do tênis masculino deu o seu adeus. Bob e Mike Bryan, donos de 119 títulos na ATP, resolveram pendurar a raquete após 23 anos de circuito profissional. Aos 42 anos, os gêmeos haviam planejado encerrar a carreira nesta edição do US Open, mas a ausência de público pela pandemia do coronavírus desestimulou a dupla, que preferiu se ausentar imediatamente.

Foto: Glyn Kirk/AFP

A principal justificativa da dupla foi o físico. Apesar de admitirem que continuam jogando bem e que fizeram boas temporadas nos últimos anos, os gêmeos destacaram a dificuldade de se recuperar após as partidas e a necessidade de uma preparação física excessiva para continuar jogando como os principais fatores. Após o anúncio de que o US Open seria disputado com portas fechadas, os Bryans chegaram a cogitar o adiamento da aposentaria para 2021, tamanha a vontade de se despedirem em casa e com os fãs presentes, mas o corpo falou mais alto.

Bob e Mike conquistaram tudo na categoria. Foram 119 títulos em 37 torneios diferentes e mais de 1000 partidas vencidas. A carreira insanamente vitoriosa da dupla inclui medalha de ouro olímpica, quatro ATP Finals, Copa Davis, 16 Grand Slams e 39 Masters 1000. Juntos, foram os números 1 do mundo por 438 semanas, terminaram o ano como a melhor dupla da temporada por 10 vezes e até mesmo monopolizaram a tradicional votação de dupla favorita dos fãs no ATP Awards, sendo os escolhidos em 14 dos 15 anos de existência do prêmio. O outro time que levou o troféu dos fãs? Mike Bryan e Jack Sock em 2018, o ano em que Bob operou o quadril. Absolutamente tudo.

Mas mais do que conquistas dentro das quadras, a importância de Bob e Mike Bryan fora delas é ainda maior. Os gêmeos foram essenciais para que a categoria das duplas, que hoje traz tantas alegrias para o Brasil, continuasse a existir. E que sorte as duplas tiveram de ter os Bryans.

Em junho de 2005, os gêmeos lideraram um processo contra a ATP, que havia anunciado mudanças que afetariam a existência das duplas. A exigência de que somente tenistas das chaves de simples jogariam duplas e a alteração drástica no formato de disputa causou a revolta dos duplistas da época, que temiam o fim abrupto de suas carreiras.

A briga seguiu na justiça até novembro daquele ano, quando os duplistas conseguiram fazer a ATP recuar e barrar a obrigatoriedade do ranking de simples. A mudança no formato, porém, permaneceu e é a que conhecemos hoje, com no-ad e match tie-break. O discurso da ATP para isso era de que o encurtamento da duração ajudaria a colocar as partidas em quadras maiores e também na televisão, consequentemente aumentando a promoção. A promessa, no entanto, não foi cumprida e prejudicou a categoria, facilitando o negligenciamento nos anos seguintes e relegando as duplas ao livescore e quadras menores.

Por isso, após a questão legal entre as duplas e a ATP, os Bryans continuaram a brigar pelo apoio da associação. Os gêmeos chegaram a cogitar a aposentadoria algumas outras vezes, mas a incerteza do que seria das duplas quando eles aposentassem os fez continuar. Bob e Mike não queriam se retirar do circuito sem deixar um legado interno, uma vontade de mudar na ATP.

Em 2005, Bob e Mike Bryan lideraram o processo contra a ATP que garantiu a permanência dos duplistas no circuito.

Apesar das vitórias conquistadas dentro e fora das quadras, os gêmeos já confessaram algumas vezes que gostariam de ter feito mais pelas duplas e que se sentem muito egoístas de não terem agido com frequência no lado político. E isso é a definição máxima do que os Bryans são. Conquistaram tudo, conseguiram mudanças, evitaram que toda uma categoria perdesse o emprego, foram a cara das duplas masculinas por mais de 20 anos, sempre criticaram publicamente a ATP pelos erros e, mesmo assim, queriam ter feito mais.

Os irmãos queriam a representatividade das duplas na parte política da ATP e ela veio a acontecer no Conselho dos Jogadores, que já contou com nomes como Marcelo Melo e Jamie Murray, além de Eric Butorac na presidência, e que hoje tem Bruno Soares e Jurgen Melzer, para garantir que a categoria tivesse para onde correr e garantir seus direitos. Bob e Mike também sempre foram muito críticos do tratamento da ATP com as duplas em suas redes sociais, campanhas promocionais, transmissões e programação em torneios, algo que, aos poucos, está mudando.

Antes nulo e impossível de acompanhar, hoje as duplas têm uma presença maior nessas diversas plataformas da associação. A obrigatoriedade de transmissão de todas as partidas de duplas nos Masters 1000, ações extra-quadra que envolvem a interação dos duplistas com o público e até mesmo algo simples como notícias e conteúdos nas redes sociais da ATP foram algumas das conquistas que as duplas conseguiram nos últimos cinco anos, aumentando a exposição e facilitando a identificação dos fãs de tênis com a categoria.

Se os irmãos tinham medo de não conseguir deixar um legado, a dúvida já não existe mais. As ações tomadas pelos companheiros de circuito nos últimos anos são certamente influenciadas pelos gêmeos. Seja através do Conselho dos Jogadores, de conversas internas ou das redes sociais, os duplistas estão muito vocais nos pedidos por mudanças. Aos poucos, a categoria está ganhando os seus direitos e muito disso é graças aos norte-americanos. Mais do que títulos, o legado dos Bryans são as duplas. Obrigada, Bob e Mike, por terem lutado e inspirado toda uma geração de tenistas.

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